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Esquerda e direita: de onde vieram esses termos e como eles chegaram à política brasileira?

Foto do escritor: Rudney Nicacio
Rudney Nicacio
31 de ago.
9 min de leitura

Esquerda e direita: de onde vieram esses termos e como eles chegaram à política brasileira?


Quando alguém diz que uma pessoa é “de esquerda” ou “de direita”, parece estar utilizando conceitos antigos e perfeitamente definidos. Mas a história é bem mais complexa.


As palavras esquerda e direita, no sentido político, nasceram de uma circunstância bastante concreta: a posição dos parlamentares dentro de uma assembleia durante a Revolução Francesa.


Com o passar dos séculos, aquela simples disposição física dos deputados transformou-se em uma das principais maneiras de organizar o pensamento político moderno. Entretanto, os significados mudaram várias vezes. O que era considerado “esquerda” ou “direita” no século XVIII não corresponde exatamente ao que esses termos significam hoje.


E compreender essa história é particularmente importante no Brasil, onde frequentemente utilizamos essas categorias de maneira simplificada para classificar partidos, políticos e até mesmo pessoas.


A origem: a Revolução Francesa


Para entender o nascimento dos termos, precisamos voltar a 1789, quando a França entrou em uma profunda crise política, econômica e social.


A monarquia de Luís XVI enfrentava dificuldades financeiras, enquanto a sociedade francesa era marcada por privilégios associados ao clero e à nobreza.


Nesse contexto, os representantes reunidos na Assembleia Nacional Constituinte passaram a discutir questões fundamentais: qual deveria ser o poder do rei? Quem deveria exercer a soberania? Quais seriam os direitos dos cidadãos? Como deveria funcionar o novo Estado?


Durante os debates, aqueles que defendiam posições mais favoráveis à manutenção da autoridade do rei e da ordem tradicional tendiam a se sentar à direita do presidente da Assembleia.


Do outro lado, aqueles que defendiam mudanças mais profundas e a redução dos poderes da monarquia sentavam-se à esquerda.


No centro ficavam posições intermediárias.


Assim, uma circunstância aparentemente banal — onde cada grupo se sentava — acabou dando origem a uma classificação política que atravessaria séculos.


A direita


Inicialmente, a direita estava associada à defesa da monarquia, da tradição, da ordem estabelecida e dos poderes institucionais existentes.


A esquerda


A esquerda passou a representar aqueles que defendiam mudanças políticas e sociais mais profundas, maior igualdade e ruptura com determinadas estruturas tradicionais.


É importante perceber que, naquele momento, “esquerda” não significava necessariamente socialismo ou comunismo. Essas ideologias ainda nem existiam na forma que conheceríamos posteriormente.


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Do século XVIII ao XIX: esquerda e direita ganham novos significados


Durante o século XIX, a Revolução Industrial transformou profundamente a sociedade.


A urbanização cresceu, surgiu uma enorme classe trabalhadora industrial e aumentaram os conflitos entre trabalhadores e proprietários.


Nesse contexto apareceram novas correntes políticas.


O liberalismo passou a defender, em diferentes versões, direitos individuais, propriedade privada, liberdade econômica e limitações ao poder estatal.


O conservadorismo enfatizou a preservação da ordem, das instituições e das tradições.


O socialismo passou a defender transformações mais profundas nas relações econômicas e sociais, especialmente diante das desigualdades produzidas pelo capitalismo industrial.


Posteriormente, o comunismo, associado principalmente a Karl Marx e Friedrich Engels, defenderia uma transformação ainda mais radical da estrutura econômica e da propriedade.


A partir daí, a esquerda passou progressivamente a estar associada a ideias como:


- igualdade social;

- redução das desigualdades econômicas;

- direitos dos trabalhadores;

- políticas de proteção social;

- maior intervenção do Estado na economia;

- socialismo;

- comunismo, em determinadas correntes.


Enquanto a direita passou a ser associada, em diferentes graus, a:


- propriedade privada;

- liberdade econômica;

- defesa da ordem;

- conservadorismo;

- valorização das tradições;

- menor intervenção estatal na economia;

- defesa de determinadas instituições e hierarquias sociais.


Mas essas associações nunca foram absolutas.


Esquerda e direita não são blocos homogêneos.


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E onde entra o Brasil?


O Brasil não simplesmente reproduziu a história política europeia.


Nossa formação política foi marcada por monarquia, escravidão, desigualdade social, coronelismo, autoritarismo, populismo, nacionalismo, liberalismo, conservadorismo, socialismo e diferentes formas de intervenção estatal.


Por isso, importar categorias políticas estrangeiras sem considerar a história brasileira pode levar a interpretações equivocadas.


Durante o Império, por exemplo, existiam grupos chamados de liberais e conservadores, mas seria um erro simplesmente classificá-los como “esquerda” e “direita” nos mesmos termos utilizados atualmente.


Ao longo do século XX, novas ideologias ganharam espaço, principalmente com o crescimento do movimento operário, do sindicalismo, do socialismo e do comunismo.


Posteriormente, a Guerra Fria aprofundou a disputa entre capitalismo e socialismo e influenciou fortemente a política brasileira.


O golpe de 1964 e a ditadura militar também precisam ser compreendidos dentro desse contexto nacional e internacional.


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A redemocratização e a política contemporânea


A partir da década de 1980, o Brasil iniciou o processo de redemocratização.


Em 1988 foi promulgada a atual Constituição, estabelecendo o Estado Democrático de Direito e consolidando direitos individuais, sociais e políticos.


A partir daí, a democracia brasileira passou a abrigar uma grande variedade de partidos e correntes ideológicas.


O Partido dos Trabalhadores (PT) tornou-se uma das principais forças da esquerda brasileira.


Outros partidos ocuparam posições variadas entre centro, centro-direita e direita.


Nas últimas décadas, porém, a divisão política tornou-se cada vez mais polarizada.


A partir da década de 2010, manifestações populares, crise econômica, Operação Lava Jato, impeachment de Dilma Rousseff, crise de confiança nas instituições e crescimento das redes sociais transformaram profundamente o cenário político.


Em 2018, Jair Bolsonaro tornou-se a principal expressão eleitoral de uma nova direita brasileira.


O resultado foi uma polarização cada vez mais intensa entre grupos identificados principalmente com Lula e o PT e grupos identificados com Bolsonaro e a direita.


Mas reduzir a política brasileira a esses dois grupos também é um erro.


Existem muitas posições intermediárias e muitas diferenças dentro da própria esquerda e da própria direita.


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O problema de enxergar política como futebol


Talvez um dos maiores problemas da política brasileira contemporânea seja transformar o eleitor em torcedor.


No futebol, você escolhe um time e torce por ele.


Na política, porém, o candidato não deveria ser tratado como um time de futebol.


Se um político que você apoia apresenta uma proposta ruim, você deveria ser capaz de reconhecer que ela é ruim.


Se um político de quem você não gosta apresenta uma boa proposta, deveria ser possível reconhecer que ela é boa.


Caso contrário, deixamos de avaliar ideias e passamos a defender identidades.


A pergunta deixa de ser:


«“Essa proposta é boa para o país?”»


e passa a ser:


«“Quem está falando isso? É do meu lado ou do lado deles?”»


Esse é um dos caminhos mais rápidos para a polarização irracional.


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Como o eleitor pode escolher melhor em 2026?


Para quem não acompanha política diariamente, não é necessário conhecer profundamente todos os partidos, economistas, cientistas políticos ou especialistas.


Mas é importante desenvolver um método mínimo de avaliação.


Em vez de escolher o candidato simplesmente pela propaganda, pelo discurso mais emocionante ou pelo ódio ao adversário, vale fazer algumas perguntas.


1. O que exatamente esse candidato promete?


Não fique apenas no slogan.


Procure saber:


O que ele pretende fazer?


Uma promessa genérica como “vou melhorar a saúde”, “vou acabar com a corrupção” ou “vou gerar empregos” diz muito pouco.


A pergunta seguinte deveria ser:


Como?


Qual política será implementada?


Quanto vai custar?


De onde virá o dinheiro?


Quem será responsável?


Em quanto tempo?


Uma promessa sem explicação de como será executada é apenas uma intenção.


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2. Procure o histórico, não apenas o discurso


Uma das melhores maneiras de conhecer um político é observar o que ele fez quando teve poder.


Se já ocupou cargo público, procure saber:


- quais projetos apoiou;

- como votou;

- quais políticas implementou;

- quais alianças fez;

- quais promessas cumpriu;

- quais promessas abandonou;

- como utilizou os recursos públicos;

- quais foram os resultados de sua administração.


Isso não significa que alguém seja obrigado a repetir exatamente o que fez no passado.


Políticos podem mudar de opinião.


Mas uma mudança de posição deve ser analisada e explicada.


O passado não determina necessariamente o futuro, mas ajuda a revelar padrões de comportamento.


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3. Não avalie apenas o candidato: observe quem estará ao redor dele


No Brasil, o presidente, governador e prefeito não governam sozinhos.


Existe Legislativo, Judiciário, partidos, governadores, prefeitos, Congresso, assembleias legislativas, câmaras municipais e uma enorme estrutura administrativa.


Por isso, também é importante observar:


Com quem esse candidato pretende governar?


Quais partidos fazem parte da sua aliança?


Quem são seus principais apoiadores?


Quais grupos terão influência sobre seu governo?


Isso é especialmente importante porque um candidato pode fazer uma campanha extremamente ideológica e, depois de eleito, precisar negociar com forças políticas muito diferentes.


---


4. Não escolha somente pelo medo do adversário


Essa talvez seja uma das armadilhas mais comuns.


“Vote em mim porque o outro candidato é uma ameaça.”


“Vote em mim porque, se o outro ganhar, o país vai acabar.”


O medo pode ser utilizado como uma poderosa ferramenta eleitoral.


Isso não significa que riscos reais devam ser ignorados.


Significa apenas que o medo do adversário não deveria substituir a avaliação do próprio candidato.


Em vez de perguntar apenas:


«“Quem é pior?”»


também pergunte:


«“Quem apresenta o melhor projeto e tem maior capacidade de executá-lo?”»


---


5. Desconfie de conteúdos que provocam indignação instantânea


As redes sociais mudaram completamente a maneira como consumimos política.


Uma informação falsa, um vídeo fora de contexto ou uma manchete sensacionalista pode circular rapidamente.


Quanto mais uma publicação provoca:


- raiva;

- medo;

- indignação;

- sensação de superioridade;

- ódio ao adversário;


maior deveria ser a nossa disposição para verificar antes de compartilhar.


Não é porque uma informação confirma aquilo que você já acredita que ela é verdadeira.


Esse é um ponto fundamental:


a nossa tendência de acreditar facilmente naquilo que confirma nossas opiniões pode ser explorada politicamente.


---


6. Consulte fontes oficiais


Durante uma eleição, vale procurar informações diretamente nas fontes oficiais.


O Tribunal Superior Eleitoral disponibiliza informações sobre candidaturas, partidos, patrimônio declarado, contas eleitorais e outros dados por meio do sistema DivulgaCandContas.


Isso permite que o eleitor vá além da propaganda eleitoral e consulte informações sobre os candidatos.


A ideia não é acreditar cegamente em uma única fonte, mas começar por informações verificáveis e oficiais e, quando necessário, comparar com outras fontes confiáveis.


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7. Não confunda ideologia com competência


Um candidato pode defender ideias que você considera excelentes e, ainda assim, ser um péssimo administrador.


Da mesma forma, alguém pode ter uma ideologia diferente da sua e demonstrar competência em determinada área.


Por isso, além de perguntar:


“Eu concordo com as ideias dele?”


pergunte:


“Ele é capaz de executar essas ideias?”


Política envolve valores, mas também envolve administração, economia, negociação, planejamento, instituições e capacidade de execução.


Uma boa intenção não garante um bom resultado.


---


8. Faça um checklist antes de votar


Antes de escolher seu candidato, reserve algum tempo para responder honestamente:


Propostas


☐ Sei quais são as principais propostas do candidato.


☐ Entendi como ele pretende colocar essas propostas em prática.


☐ Sei quanto algumas das principais medidas podem custar.


☐ Sei, pelo menos de maneira geral, de onde virão os recursos.


Histórico


☐ Pesquisei o que o candidato já fez quando ocupou cargo público.


☐ Verifiquei quais promessas anteriores foram cumpridas.


☐ Procurei saber quais decisões e votações foram tomadas por ele.


☐ Considerei também seus erros e contradições, e não apenas seus acertos.


Equipe e alianças


☐ Sei quais partidos e grupos apoiam o candidato.


☐ Tenho alguma noção de quem poderá fazer parte de seu governo.


☐ Considerei se ele terá condições políticas de aprovar suas propostas.


Informação


☐ Não estou baseando minha decisão apenas em vídeos de redes sociais.


☐ Verifiquei informações que parecem exageradas ou chocantes.


☐ Comparei informações de fontes diferentes.


☐ Consultei, quando possível, fontes oficiais.


Emoção


☐ Não estou escolhendo apenas porque odeio o adversário.


☐ Não estou escolhendo apenas por medo de que o outro candidato vença.


☐ Consigo reconhecer uma proposta boa mesmo quando ela vem de alguém de quem não gosto.


☐ Consigo reconhecer uma proposta ruim mesmo quando ela vem do candidato que apoio.


Decisão


☐ Conheço as principais qualidades e limitações do candidato.


☐ Comparei-o com outras opções.


☐ Estou escolhendo por convicção, e não simplesmente por torcida.


☐ Estou consciente de que nenhum candidato é perfeito.


---


9. Não procure o candidato perfeito


Talvez essa seja uma das lições mais importantes.


O candidato perfeito provavelmente não existe.


Todo político possui limitações, contradições, erros e escolhas que podem ser questionadas.


A escolha eleitoral muitas vezes não consiste em encontrar alguém com quem você concorda em 100% das questões.


Consiste em avaliar:


Qual candidato apresenta o conjunto de propostas, valores, histórico e capacidade de governar que considero mais adequado?


Isso é muito diferente de procurar um “salvador da pátria”.


Democracias funcionam melhor quando o cidadão entende que nenhum político deve receber um cheque em branco.


---


Uma regra simples para 2026


Para o eleitor que não acompanha política de perto, talvez possamos resumir tudo em uma regra:


Não vote apenas no candidato que fala o que você quer ouvir. Vote depois de descobrir o que ele realmente pretende fazer, como pretende fazer e o que já fez quando teve poder.


E acrescente uma quarta pergunta:


“Eu escolheria esse candidato se o meu principal adversário político não estivesse concorrendo?”


Essa pergunta é poderosa.


Porque muitas vezes não estamos escolhendo alguém.


Estamos apenas tentando impedir que o outro ganhe.


E votar exclusivamente contra alguém pode fazer com que deixemos de avaliar criticamente quem estamos colocando no poder.


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Conclusão: menos torcida, mais pensamento crítico


A divisão entre esquerda e direita nasceu de uma disposição física dentro de uma assembleia durante a Revolução Francesa.


Séculos depois, essas palavras passaram a representar diferentes visões sobre economia, Estado, liberdade, igualdade, tradição, costumes e organização da sociedade.


No Brasil, entretanto, essas categorias assumiram características próprias e se misturaram com nossa história política.


Por isso, ser de esquerda ou de direita não diz tudo sobre uma pessoa.


Duas pessoas podem estar no mesmo campo ideológico e discordar profundamente sobre economia, costumes, segurança pública, liberdade de expressão, papel do Estado ou política externa.


Da mesma maneira, alguém pode concordar com uma proposta da esquerda e outra da direita sem que isso seja uma contradição.


A política não precisa ser uma escolha entre dois times.


O eleitor não precisa abandonar seus valores ou sua ideologia. Mas precisa ser capaz de questionar o próprio lado.


Talvez esse seja um dos sinais de maturidade política:


conseguir ouvir uma boa ideia sem perguntar primeiro de qual lado ela veio.


Em 2026, antes de votar, vale fazer uma pausa e perguntar:


O que esse candidato promete?


Como pretende realizar?


Quanto vai custar?


Qual é seu histórico?


Quem são seus aliados?


O que dizem fontes independentes e oficiais?


E, principalmente: eu estou escolhendo esse candidato por convicção ou apenas por medo e rejeição ao adversário?


No final, democracia não exige que todos pensem igual.


Exige que tenhamos liberdade para pensar diferente — e responsabilidade suficiente para verificar antes de escolher.

 
 

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