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Lucidez Diante da Impermanência

  • Foto do escritor: Rudney Nicacio
    Rudney Nicacio
  • 26 de jan.
  • 3 min de leitura

Muitas pessoas constroem um estilo de vida voltado à saúde, ao equilíbrio e ao bem-estar. Alimentam-se bem, cuidam do corpo, da mente, da rotina. Isso é valioso e merece reconhecimento. O problema começa quando, apesar de todo esse cuidado, a vida faz o que sempre fez: surpreende. Uma doença aparece, um plano não se concretiza, uma perda acontece. E então vem a frustração, como se algo tivesse “dado errado”. A verdade é que não deu. A vida não quebrou nenhuma regra — porque ela nunca prometeu previsibilidade.


Fazer o melhor que está ao nosso alcance não é um pacto de imunidade contra o imprevisto. É, antes de tudo, um ato de responsabilidade e amor-próprio. Cuidar de si aumenta as chances de bem-estar, fortalece o corpo e clareia a mente, mas não transforma a existência em um sistema controlável. Confundir cuidado com controle é uma armadilha silenciosa.


Lucidez é entender que a impermanência não invalida o esforço. Pelo contrário: ela dá sentido a ele. Sabendo que tudo muda, escolhemos agir bem hoje — não para garantir um futuro perfeito, mas para atravessar o que vier com mais recursos internos, mais consciência e mais dignidade.

A imprevisibilidade da vida não é um erro no sistema; é o próprio sistema. Aceitá-la não significa desistir, nem se tornar indiferente. Significa parar de lutar contra o que não pode ser dominado e focar no que realmente está sob nosso alcance: nossas escolhas, atitudes e respostas.


Faça o seu melhor. Cuide do corpo, da mente, das relações. Mas faça isso com humildade diante da vida. Sem a ilusão de controle absoluto. Sem se culpar quando algo foge da rota. A serenidade nasce quando entendemos que viver bem não é evitar quedas, e sim aprender a caminhar mesmo sabendo que o chão pode mudar.

No fim, equilíbrio não é rigidez. É flexibilidade. É força com consciência. É cuidar de si enquanto se aceita, com maturidade, que a vida continua sendo maior do que qualquer planejamento.


Há uma diferença fundamental entre o que é evitável e o que é inevitável — e confundir as duas coisas costuma gerar julgamentos injustos e frustrações desnecessárias.

Um pneumologista fumante é um paradoxo evitável. Há conhecimento, há escolha, há responsabilidade direta. Já um pneumologista acometido por pneumonia é algo que pode acontecer. Conhecimento reduz riscos, mas não concede imunidade. Da mesma forma, um cardiologista morrer de infarto não é incoerência nem fracasso profissional — é uma possibilidade humana. Saber não é controlar. Prevenir não é garantir. Cuidar-se não é assinar um contrato de invulnerabilidade.


Esses exemplos nos lembram que viver bem não é sobre eliminar todos os riscos, mas sobre não adicionar riscos desnecessários e, ainda assim, aceitar que a vida permanece incerta. A lucidez está em fazer escolhas conscientes sem cair na ilusão de que elas nos colocam acima da condição humana. A maturidade nasce quando entendemos isso: responsabilidade onde há escolha, humildade onde há acaso. O resto é ego disfarçado de autocuidado.


Velhice, doença e morte são cláusulas não negociáveis do contrato da vida.

O que muda — e muda muito — é como atravessamos esse caminho. Dá pra chegar com mais lucidez, menos sofrimento desnecessário e um pouco de sabedoria no bolso… ou brigando com o inevitável, como se a realidade tivesse nos traído. Aceitar isso não é pessimismo, é libertador. Quando a gente entende que ninguém escapa do fim, para de viver como se fosse eterno e começa a viver com mais verdade. Menos ilusões, menos culpa, mais presença. No fim das contas, o autocuidado não é para evitar a morte — é para viver melhor enquanto ela não chega. E isso, por si só, já vale muito.


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© 2016 por Rudney Nicacio.

Orgulho de ser WIX!

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