Não sei — e está tudo bem
- Rudney Nicacio

- há 3 dias
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Durante muito tempo, a humanidade tentou responder às grandes perguntas da existência com respostas prontas: de onde viemos, por que estamos aqui, o que acontece depois da morte. As religiões ofereceram narrativas completas, coerentes dentro de seus próprios sistemas, explicando desde o surgimento do universo até o destino final da alma.
Hoje, eu não preciso mais dessas respostas.
Não porque eu tenha encontrado respostas melhores.
Mas porque aprendi a conviver com o fato de que talvez eu não saiba — e talvez nunca saiba.
A força não vem de fora
Durante minha própria experiência de vida, percebi algo simples e transformador: nos momentos de superação, de dor, de dificuldade, não foram forças sobrenaturais que agiram por mim. Foi minha própria capacidade de adaptação, minha resiliência, minha autorregulação emocional.
A ciência mostra que práticas como oração, mantras e rituais realmente produzem efeitos psicológicos e fisiológicos. Reduzem ansiedade, aumentam foco, regulam emoções. Mas esses efeitos acontecem dentro do próprio organismo. O cérebro responde ao significado, à expectativa, ao foco.
Se eu consagrar uma tampa de garrafa como objeto sagrado e acreditar que ela me traz calma, meu corpo pode reagir. Mas o mecanismo continua sendo interno. O poder não está no objeto — está na mente que atribui sentido.
Quando entendi isso, percebi que não precisava mais da estrutura metafísica para acessar meus próprios recursos internos.
A honestidade do “não sei”
Prefiro admitir que não sei de onde vim, nem como o universo surgiu, nem o que acontece após a morte. Essa ignorância não me angustia. Pelo contrário, me parece intelectualmente honesta.
Muitas tradições religiosas apresentam respostas definitivas sobre esses temas. Para mim, isso soa como uma pretensão de certeza onde há mistério. E eu aprendi a aceitar o mistério.
Não saber não me enfraquece.
Não ter uma verdade absoluta não me desestabiliza.
Moral sem recompensa e sem punição
Eu não faço o bem por medo de punição eterna.
Não evito o mal por temor do inferno.
Não ajudo esperando recompensa no paraíso.
Evito causar sofrimento porque sei que o sofrimento é real.
Procuro agir com responsabilidade porque vivemos em interdependência.
Quando faço alguém sofrer, isso reverbera no mundo que também me afeta. Quando contribuo para relações mais saudáveis, eu mesmo me beneficio desse ambiente.
Não preciso de vigilância cósmica para agir com ética.
A consciência basta.
Religião e humanidade
A história das religiões carrega episódios sombrios — guerras, perseguições, intolerância. Mas também carrega momentos de solidariedade, organização social e inspiração moral.
No fim das contas, talvez o problema nunca tenha sido exclusivamente a religião. O problema somos nós: seres humanos capazes tanto de compaixão quanto de brutalidade, com ou sem crença.
Ideologias absolutas — religiosas ou não — tornam-se perigosas quando se unem a poder e dogmatismo. Não é a fé isoladamente que gera violência, mas a certeza inquestionável somada à autoridade.
Isolamento e autonomia
Sim, essa visão pode gerar certo isolamento. Nem todo mundo se sente confortável vivendo sem uma narrativa transcendental compartilhada.
Mas esse isolamento não me incomoda. Não dependo da aprovação alheia para sustentar minha visão. Não sinto vazio por não ter respostas finais.
Sinto-me completo assim.
Não é revolta. É irrelevância.
Minha posição não nasce de raiva contra a religião, nem da necessidade de provar que Deus não existe. A crença simplesmente se tornou irrelevante para a forma como eu vivo.
Se ela funciona para alguém, respeito.
Se alguém precisa dessa estrutura para encontrar estabilidade, compreendo.
Mas, para mim, não é necessária.
Eu não sei tudo.
Não tenho uma verdade absoluta.
Não preciso de uma.
E, paradoxalmente, foi ao aceitar essa incerteza que encontrei paz.

