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Relacionamento não é remédio para a solidão

  • Foto do escritor: Rudney Nicacio
    Rudney Nicacio
  • há 12 horas
  • 2 min de leitura

Existe uma diferença profunda entre querer compartilhar a vida com alguém e precisar de alguém para suportar a própria vida. Quem está bem consigo mesmo não entra em um relacionamento para ser salvo, preenchido ou consertado. Entra para somar.


Quando uma pessoa já encontrou um mínimo de paz interior, ela não vê o amor como solução para um vazio, mas como expressão de uma plenitude. Se aparece alguém igualmente inteiro, ótimo. Se não aparece, tudo bem também. A própria vida continua fazendo sentido.


O problema começa quando o relacionamento vira muleta emocional. Quando se acredita que o outro é responsável por nos fazer felizes, por curar nossas feridas, por manter nosso ânimo elevado. Esse tipo de expectativa cria um peso insustentável. Nenhum ser humano consegue carregar a responsabilidade pela felicidade de outro.


Atribuir ao parceiro a tarefa de “me fazer feliz” é transferir uma responsabilidade que é individual. Felicidade não é algo que alguém nos entrega; é um estado construído internamente, a partir de autoconhecimento, maturidade emocional e aceitação. Quando isso não está resolvido, o relacionamento vira campo de cobrança.


E cobrança constante gera sofrimento para ambos.


Para quem cobra, porque vive em frustração — o outro nunca faz o suficiente, nunca ama do jeito “certo”, nunca supre completamente o que falta.

Para quem é cobrado, porque vive sob pressão — qualquer falha vira prova de insuficiência.


Relacionamentos saudáveis nascem de duas pessoas que já sabem ficar sozinhas. Que não usam o outro para escapar do silêncio, do tédio ou da insegurança. Duas pessoas que não têm medo da própria companhia tendem a se relacionar por escolha, não por necessidade.


Escolha é liberdade.

Necessidade é dependência.


Isso não significa frieza ou indiferença. Significa maturidade. Amar alguém não é transformá-lo em fonte exclusiva de sentido. É compartilhar caminhos mantendo a própria base firme.


Quando alguém está bem consigo mesmo, o relacionamento deixa de ser um contrato implícito de salvação emocional e passa a ser um encontro. Dois indivíduos inteiros, que caminham juntos porque desejam, não porque precisam.


E existe algo muito poderoso nisso: a ausência de desespero.


Quem sabe ser feliz sozinho não aceita qualquer coisa por medo de ficar só. Não se prende por carência. Não negocia valores por insegurança. A solidão deixa de ser ameaça e passa a ser espaço de crescimento.


Paradoxalmente, essa autonomia emocional torna o amor mais leve. Porque quando não há dependência, há menos controle. Quando não há cobrança excessiva, há mais espontaneidade. Quando não há medo constante de perder, há mais presença.


Relacionar-se não é buscar alguém para tapar buracos internos. É dividir a abundância do que já se construiu dentro de si.


Se aparece alguém bem, que venha para somar.

Se não aparece, a vida continua plena.



A verdadeira liberdade afetiva começa quando entendemos que o outro pode acrescentar felicidade — mas nunca ser sua origem.

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