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A morte como dissolução, não como inimiga

  • Foto do escritor: Rudney Nicacio
    Rudney Nicacio
  • 27 de jan.
  • 3 min de leitura

A morte é um dos poucos temas verdadeiramente universais, e paradoxalmente um dos mais evitados. Fala-se sobre sucesso, futuro, felicidade, produtividade — mas quase nunca sobre o fim. Como se o silêncio tivesse o poder de afastá-la. Não tem. O que ele faz, na verdade, é alimentar o medo.

Grande parte do pavor em relação à morte não vem da morte em si, mas das ideias que projetamos sobre ela: castigo, vazio aterrador, esquecimento absoluto, perda de identidade, insignificância. Tememos deixar de existir porque fomos ensinados a acreditar que existir só tem valor se houver continuidade, memória, reconhecimento, um “eu” preservado.

Mas… e se o problema não for a morte? E se o problema for o apego doentio à ideia de um “eu” fixo?

O medo de acabar

O medo de morrer quase sempre é, no fundo, o medo de desaparecer enquanto identidade. Não ser lembrado. Não fazer falta. Não deixar marca. É o ego pedindo garantia de permanência em um universo que nunca prometeu isso.

Só que tudo o que existe é transitório. Corpos, relações, ideias, civilizações, estrelas.

A tentativa de negar essa verdade não nos protege — ela nos aprisiona. Quem vive fugindo da morte acaba vivendo com ansiedade, controle excessivo, necessidade de validação constante e uma angústia silenciosa que nunca se resolve.

A morte como dissolução

Existe outra forma de olhar: a morte não como punição, mas como dissolução. Não como algo a ser experimentado, mas como o fim da experiência. Assim como no sono profundo sem sonhos, não há sofrimento, não há vazio consciente, não há “alguém” para sentir medo.

Não é escuridão. Não é solidão. É ausência de experiência.

E isso, para muitas pessoas, é profundamente libertador.

A ideia de que o “eu” — essa narrativa cansativa, defensiva, cheia de expectativas e culpas — um dia se dissolve pode trazer serenidade. Não porque a vida não importe, mas porque ela deixa de carregar o peso da eternidade.

Não ter medo não é desejar morrer

Esse ponto é essencial. Aceitar a morte não significa buscá-la. Não é desistência da vida. Pelo contrário: é reconciliação com a realidade.

Quem não teme a morte de forma doentia costuma:

  • viver com mais presença,

  • fazer escolhas mais honestas,

  • sofrer menos com vaidade e comparação,

  • amar sem tanta posse.

Quando a morte deixa de ser inimiga, a vida deixa de ser uma corrida desesperada por sentido.

O esquecimento não é uma tragédia

Tememos não ser lembrados como se isso anulasse nossa existência. Mas ninguém escolhe nascer, e ninguém escolhe ser eterno. A passagem pelo mundo não precisa de aplausos para ter sido real.

Uma vida não perde valor porque termina. Uma música não é inútil porque acaba. Um pôr do sol não precisa durar para sempre para ser belo.

A importância da vida está no viver, não na permanência.

Falar sobre a morte é um ato de cuidado

Evitar o tema não nos protege. Conversar sobre ele, sim. Falar sobre a morte com honestidade reduz o medo infantil e transforma a relação com a existência. Nos ensina limites, humildade e, paradoxalmente, gratidão.

A morte não precisa ser romantizada, nem demonizada. Ela pode ser encarada com neutralidade serena.

Não precisamos correr em sua direção. Mas quando ela chegar — como chegará para todos — podemos recebê-la sem resistência, sem pânico, sem desespero.

Aceitar a morte não rouba sentido da vida. Rouba apenas o medo que nos impede de vivê-la plenamente.

Falar sobre isso não é morbidez. É maturidade.

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