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A mudança, o silêncio e a responsabilidade moral

  • Foto do escritor: Rudney Nicacio
    Rudney Nicacio
  • 31 de jan.
  • 2 min de leitura

Existe uma verdade simples, mas difícil de aceitar: ninguém muda ninguém. A mudança genuína só acontece quando o próprio indivíduo reconhece a necessidade de mudar e decide agir a partir disso. Qualquer tentativa externa de transformação, quando não encontra esse reconhecimento interno, resulta apenas em resistência, adaptação superficial ou conflito. Por isso, insistir em mudar o outro costuma ser menos eficaz do que parece — e, muitas vezes, revela mais sobre o nosso desconforto do que sobre a falha alheia.


Essa constatação, porém, levanta uma questão ética importante: se não podemos mudar o outro, qual é então a nossa responsabilidade diante do erro, da injustiça ou da violência? É nesse ponto que a frase “o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons” uma citação famosa atribuída a Martin Luther King Jr. — ganha profundidade.


O “grito dos maus” é previsível. Quem age de forma destrutiva, injusta ou egoísta geralmente não percebe — ou não admite — o próprio problema. O grito é coerente com sua inconsciência ou com seus interesses. O verdadeiro problema surge quando aqueles que reconhecem o erro optam pelo silêncio. Não porque o silêncio transforme o mau em bom, mas porque ele retira o limite moral, normaliza o inaceitável e dissolve a responsabilidade individual.


Aqui é fundamental fazer uma distinção clara: posicionar-se não é tentar mudar o outro. Posicionar-se é não compactuar. Falar não é um ato de controle, é um ato de integridade.


Quando alguém se cala diante do que considera errado, não está respeitando a autonomia do outro — está, muitas vezes, protegendo a si mesmo do desconforto, do conflito ou da exclusão. O silêncio passa a ser uma forma de adaptação conveniente. E, ainda que não produza diretamente o mal, cria o ambiente onde ele prospera sem resistência.


Isso não significa que todo erro precise ser combatido, nem que toda situação exija confronto. Há sabedoria em escolher batalhas e em respeitar limites. Mas há também um preço interno quando o silêncio se torna regra. Nesse caso, o custo não é pago pelo mundo, mas pelo próprio indivíduo, que começa a se afastar daquilo que reconhece como verdadeiro.


Assim, a frase não exige heroísmo nem promete redenção coletiva. Ela aponta para algo mais simples e mais duro: coerência. Não se trata de salvar o outro, mas de não se perder a si mesmo. Não se trata de garantir mudança externa, mas de preservar a honestidade interna.


No fim, aceitar que não podemos mudar ninguém nos coloca diante de três caminhos claros:ou mudamos a forma como nos relacionamos,ou nos afastamos,ou aceitamos o outro exatamente como ele é — sem ilusões.


O silêncio dos bons preocupa porque revela uma escolha. E toda escolha, mesmo a de não agir, é uma forma de ação. A verdadeira questão, portanto, não é se o outro vai mudar, mas quem nos tornamos quando escolhemos falar — ou calar.

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