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Desmistificando a meditação

  • Foto do escritor: Rudney Nicacio
    Rudney Nicacio
  • 22 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura
Padrões da mente

À primeira vista, pode parecer contraditório: conseguimos ficar duas horas completamente absorvidos por um filme, mas quando tentamos meditar por apenas cinco minutos, a experiência se torna desconfortável, entediante ou até angustiante — especialmente para quem está começando. Essa diferença, porém, revela muito sobre o funcionamento da mente humana e sobre os hábitos que cultivamos ao longo da vida.

Quando assistimos a um filme, a mente está em seu “ambiente natural” moderno. O cinema foi feito para capturar a atenção: imagens em movimento, trilha sonora, diálogos, cortes rápidos e uma narrativa que cria expectativa constante. Tudo isso estimula o cérebro de forma contínua, oferecendo recompensas emocionais imediatas. A mente não precisa fazer esforço para permanecer ali; ela é levada, quase carregada, pela história. Existe sempre algo novo acontecendo, e isso mantém o sistema de atenção ocupado e satisfeito.

Além disso, ao assistir a um filme, estamos essencialmente nos distraindo de nós mesmos. Nossos problemas, inseguranças e inquietações internas ficam em segundo plano enquanto nos identificamos com os personagens. Há um alívio temporário do “peso de ser eu”. A mente gosta disso, pois evita o contato direto com pensamentos difíceis, silêncios desconfortáveis e emoções não resolvidas.

A meditação, por outro lado, vai na direção oposta. Em vez de preencher a mente com estímulos, ela convida ao silêncio, à observação e à ausência de entretenimento. Para o iniciante, isso é profundamente desafiador. Ao sentar para meditar, não há história, trilha sonora ou imagens externas para se apoiar. O que surge é o conteúdo bruto da própria mente: pensamentos repetitivos, ansiedade, lembranças, julgamentos e inquietação corporal. É como entrar em um quarto que sempre esteve cheio, mas que nunca foi realmente organizado ou observado com atenção.

Outro fator importante é o condicionamento. Desde cedo, somos treinados a buscar estímulos constantes: telas, notificações, vídeos curtos, música, conversas. A mente se acostuma a esse ritmo acelerado e passa a rejeitar tudo que parece lento ou simples demais. Quando alguém tenta meditar por cinco minutos, o cérebro interpreta isso quase como uma ameaça: não há novidade, não há recompensa imediata, não há distração. Surge então a impaciência, a vontade de levantar, checar o celular ou desistir.

Há também a ilusão de controle. No filme, somos espectadores passivos: basta sentar e assistir. Na meditação, apesar de parecer que “não estamos fazendo nada”, existe um esforço sutil — o esforço de não se deixar levar automaticamente pelos pensamentos. Para o iniciante, isso gera frustração, pois há a expectativa de “esvaziar a mente”, algo que não acontece. Quando os pensamentos continuam surgindo, a pessoa acha que está falhando, quando na verdade está apenas vendo a mente como ela sempre foi.

Por fim, a dificuldade de meditar revela um ponto profundo: ficamos horas olhando para fora porque olhar para dentro exige coragem. O silêncio expõe o vazio, a falta de sentido, as perguntas sem resposta. Para muitos, cinco minutos de presença consigo mesmo parecem mais longos do que duas horas de distração. Não porque a meditação seja difícil em si, mas porque ela nos coloca frente a frente com aquilo que normalmente evitamos.

Com o tempo e a prática, essa relação pode mudar. A mente, aos poucos, aprende que não precisa estar sempre ocupada. O silêncio deixa de ser ameaça e passa a ser espaço. Mas, no início, a dificuldade em meditar é apenas o reflexo de uma mente treinada para consumir estímulos, não para simplesmente estar.

desmistificando a meditação

Quando alguém se aproxima do mindfulness, é comum carregar muitas ideias equivocadas que tornam a prática mais difícil do que ela realmente é. Por isso, antes de orientar, é fundamental desmistificar. Mindfulness não é “parar de pensar”, não é entrar em estado místico, não exige silêncio absoluto nem uma mente calma. Mindfulness é, de forma simples e direta, prestar atenção ao que está acontecendo agora, com curiosidade e sem julgamento.

O primeiro mito é acreditar que a mente precisa ficar vazia. Isso não só é impossível, como não é o objetivo. Pensamentos vão surgir o tempo todo. Na prática de mindfulness, eles não são inimigos; são parte do campo de observação. O treino não é eliminar pensamentos, mas perceber quando a atenção se perde neles e, gentilmente, voltar ao ponto escolhido — respiração, corpo, sons ou sensações. Cada vez que você percebe que se distraiu e retorna, isso já é a prática acontecendo.

Outro mito comum é achar que mindfulness exige muito tempo ou condições perfeitas. Na realidade, cinco minutos bem praticados são mais eficientes do que meia hora lutando contra a própria mente. Não é necessário sentar em posição específica, nem fechar os olhos se isso for desconfortável. A prática pode acontecer sentado em uma cadeira, deitado ou até em pé. O que importa é a qualidade da atenção, não a forma externa.

Também é importante desfazer a ideia de que mindfulness serve apenas para relaxar. O relaxamento pode surgir, mas não é uma obrigação. Às vezes, o que aparece é inquietação, tédio ou ansiedade. Em vez de tentar mudar essas experiências, a proposta é reconhecê-las: “há inquietação”, “há tensão no corpo”, “há impaciência”. Nomear suavemente o que está presente cria espaço entre você e a experiência, reduzindo o sofrimento automático.

Para uma prática leve e eficiente, comece pequeno e concreto. Escolha um tempo curto — dois ou três minutos já são suficientes no início. Leve a atenção para a respiração, não tentando controlá-la, apenas sentindo onde ela é mais evidente: o ar entrando e saindo pelas narinas, o movimento do peito ou do abdômen. Use essa sensação como uma âncora.

Quando a mente divagar — e ela vai — apenas note: “pensando”. Não critique, não se irrite. Em seguida, volte para a respiração, como quem conduz uma criança pela mão, com firmeza e gentileza. Essa atitude é o coração do mindfulness. A eficiência da prática está justamente nesse retorno repetido, não na ausência de distrações.

Outra forma leve de praticar é integrar o mindfulness ao cotidiano. Ao escovar os dentes, sinta o sabor da pasta, o movimento da mão, o contato da escova. Ao caminhar, perceba o peso do corpo, o contato dos pés com o chão. Essas práticas informais treinam a mesma habilidade sem a pressão de “ter que meditar”.

Por fim, é essencial compreender que mindfulness não é uma performance, mas um relacionamento diferente com a experiência. Não existe prática “boa” ou “ruim”; existe prática feita ou não feita. Alguns dias serão mais fáceis, outros mais desafiadores. O progresso não se mede pela calma, mas pela clareza e pela capacidade de perceber o que está acontecendo sem se perder completamente nisso.

Quando a prática é abordada dessa forma — simples, curta e sem expectativas irreais — o mindfulness deixa de ser um esforço pesado e se torna um espaço de presença possível, acessível e profundamente transformador.

mas preste atenção

É importante deixar claro: embora o mindfulness possa ser uma prática complementar muito útil para aumentar a consciência, a regulação emocional e a relação com os pensamentos, ele não substitui acompanhamento profissional.

Se a pessoa sofre com depressão, ansiedade, síndrome do pânico ou qualquer outra patologia psicológica, o mais indicado é procurar um profissional da área da Psicologia (e, quando necessário, da Psiquiatria). Esses profissionais são capacitados para avaliar o quadro de forma adequada, oferecer tratamento baseado em evidências científicas e acompanhar o processo com segurança.

Em alguns casos, práticas contemplativas feitas sem orientação podem até intensificar sintomas, como ruminação excessiva, angústia ou crises de ansiedade. Por isso, o cuidado profissional não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade consigo mesmo.

Mindfulness pode ser um aliado, especialmente quando integrado a um processo terapêutico, mas o cuidado com a saúde mental deve sempre respeitar os limites individuais. Buscar ajuda é um passo essencial — e muitas vezes o mais importante — no caminho do bem-estar.

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