Educar para Cuidar: A Mudança Começa em Casa
- Rudney Nicacio

- 27 de jan.
- 2 min de leitura

As tarefas do lar sempre existiram. Cozinhar, limpar, organizar, cuidar de crianças, lavar roupas, planejar compras e manter a casa funcionando são atividades essenciais para a vida cotidiana. Ainda assim, por muito tempo, essas tarefas foram tratadas como algo “menor” ou exclusivamente feminino, como se cuidar da própria casa e das pessoas que vivem nela fosse uma obrigação natural de um gênero específico. Essa ideia não apenas é injusta, como também não se sustenta diante da realidade.
O compartilhamento das tarefas domésticas não deixa ninguém mais ou menos homem. Masculinidade não é medida pela distância de uma pia, de um fogão ou de uma vassoura. Um homem que cozinha, que limpa a casa, que troca fraldas ou que cuida dos filhos não perde valor, não se diminui e não “deixa de ser homem”. Pelo contrário: demonstra responsabilidade, autonomia e maturidade. Saber cuidar de si mesmo e do ambiente em que se vive é uma habilidade básica para qualquer adulto, independentemente de gênero.
Essa construção começa na infância. Meninos que brincam de boneca aprendem, desde cedo, sobre cuidado, empatia e responsabilidade. Meninos que brincam de cozinhar, de limpar ou de “casinha” não estão sendo desviados de nada — estão sendo preparados para a vida real. Brincar é aprender. Quando uma criança tem liberdade para explorar diferentes papéis, ela desenvolve competências emocionais e práticas que levará para a vida adulta. Impedir isso com base em estereótipos apenas limita o crescimento humano.
É comum tentar justificar a desigualdade nas tarefas do lar culpando as gerações passadas, a cultura ou “como sempre foi”. Embora seja verdade que esses fatores influenciaram comportamentos, eles não podem ser usados como desculpa para manter atitudes que hoje sabemos ser injustas. A responsabilidade da mudança é nossa. Somos nós que escolhemos repetir padrões ou transformá-los. Cultura não é algo fixo; ela muda quando pessoas mudam suas atitudes no cotidiano.
Assumir essa responsabilidade significa olhar para dentro de casa e se perguntar: como as tarefas estão sendo divididas? Quem carrega o peso invisível da organização, do planejamento e do cuidado? Muitas vezes, mesmo quando há alguma divisão, a carga mental continua concentrada em uma pessoa só. Compartilhar tarefas não é “ajudar”, é assumir como obrigação comum aquilo que é comum a todos que vivem naquele espaço.
Mudar essa lógica exige consciência e ação. Exige ensinar crianças, pelo exemplo, que cuidar da casa é cuidar de si e dos outros. Exige que adultos parem de terceirizar responsabilidades e comecem a agir de forma coerente com os valores de igualdade que dizem defender. Não se trata de atacar o passado, mas de escolher um futuro diferente.
No fim das contas, dividir as tarefas do lar não é uma ameaça à identidade de ninguém. É um passo em direção a relações mais justas, saudáveis e humanas. É reconhecer que dignidade, cuidado e responsabilidade não têm gênero — são qualidades que pertencem a todos nós.

