Lucidez, Sustentabilidade e o Custo da Existência
- Rudney Nicacio

- 31 de jan.
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A ideia de que “todos os seres sejam felizes” soa, à primeira vista, nobre e compassiva. No entanto, quando confrontada com a realidade concreta da vida, ela revela seu caráter utópico. A própria existência é, inevitavelmente, predatória: para que um ser viva, outro precisa ser transformado, consumido ou eliminado. A felicidade do leão ao capturar sua presa é, simultaneamente, o sofrimento absoluto do animal caçado. Não há harmonia possível nesse processo — apenas continuidade biológica.
Reconhecer isso não é pessimismo, mas lucidez. O sofrimento não é um erro do sistema natural; ele é estrutural. A vida não foi desenhada para ser justa, mas para persistir. Nesse sentido, romantizar a realidade pode funcionar como um anestésico psicológico: uma narrativa reconfortante que não descreve o mundo como ele é, mas o torna emocionalmente suportável. Muitas ideias morais, espirituais ou ideológicas cumprem exatamente esse papel — não o de verdade factual, mas o de sustentação psíquica.
Isso não significa que tais construções sejam inúteis. O ser humano não vive apenas de fatos; vive de sentido. A mente humana evoluiu não só para perceber a realidade, mas para filtrá-la. A adaptação psíquica permite suportar dor, perda e absurdo. Se fôssemos expostos desde sempre à realidade crua, sem amortecedores simbólicos, o cérebro provavelmente se adaptaria — mas, no caminho, criamos inúmeras “muletas psíquicas”. Algumas são funcionais; outras, vazias. O problema não é criá-las, mas confundir conforto com verdade.
É nesse ponto que surge a noção de sustentabilidade, entendida de forma ampla. Sustentabilidade não é negar o impacto da existência, mas assumir responsabilidade por ele. Viver implica custo — biológico, ambiental, ético. A questão não é eliminar o dano, algo impossível, mas não ampliá-lo desnecessariamente, não agir com desperdício, cegueira ou brutalidade gratuita. Sustentabilidade é, portanto, a ética do limite.
Dentro desse contexto aparece a metáfora da “pílula vermelha”, aqui usada exclusivamente em seu sentido filosófico original, como símbolo da escolha pela lucidez e pela aceitação da realidade sem maquiagem. Não há qualquer relação com o chamado movimento “red pill” da manosfera, que reduziu essa metáfora a uma ideologia reativa, simplificadora e frequentemente ressentida. Pelo contrário: a lucidez aqui defendida não oferece inimigos fáceis, nem promessas de superioridade moral — apenas responsabilidade.
Escolher essa “pílula vermelha” significa aceitar o desconforto de ver o mundo como ele é, sem garantias emocionais, sem narrativas prontas de redenção. A liberdade que surge daí assusta porque vem sem manual. Mas ela também entrega algo raro: autoria sobre a própria consciência.
Essa escolha, no entanto, não autoriza a destruição das ilusões alheias. Muitas pessoas se mantêm de pé graças a essas narrativas. Arrancá-las sem consentimento não é libertar — é violentar. A maturidade está em perceber que nem toda verdade precisa ser dita e nem todo véu precisa ser rasgado. Respeitar a ilusão alheia, quando ela é sustentação psíquica, é um ato de compaixão consciente, não de conivência.
No fim, o ser humano se revela em sua complexidade: capaz de encarar o absurdo, mas também de criar histórias para sobreviver a ele; apto à lucidez, mas raramente disposto a viver sem amortecedores simbólicos. Talvez a postura mais honesta não seja negar as ilusões nem se ajoelhar diante delas, mas usá-las com consciência, sem confundi-las com a realidade.
Escolher ver o mundo como ele é não torna ninguém superior. Torna responsável. E essa responsabilidade — silenciosa, pesada e solitária — é o verdadeiro preço da liberdade.

