Quando a moderação vira álibi: por que nem tudo cabe nesse argumento
- Rudney Nicacio

- 8 de fev.
- 3 min de leitura
Existe uma confusão conceitual deliberada (e conveniente) entre alimentos, comportamentos e substâncias inerentemente nocivas. A ideia de “moderação” funciona muito bem em um contexto, mas é indevidamente transplantada para outro.
Moderação: quando o conceito é válido — e quando vira um álibi
A noção de moderação nasce no campo dos alimentos e comportamentos fisiologicamente necessários. Comer é indispensável. Dormir é indispensável. Exercitar-se é indispensável.Nesses casos, o excesso pode gerar dano, mas a ausência também.
O abacate é um bom exemplo:
É um alimento denso em gorduras benéficas, fibras e micronutrientes.
Em excesso, pode contribuir para superávit calórico e ganho de peso.
Em quantidades adequadas, promove saúde.
Aqui, a moderação faz sentido porque estamos lidando com algo intrinsecamente compatível com a biologia humana.
Substâncias nocivas não seguem essa lógica
Cigarro, álcool e outras drogas não são biologicamente necessárias, nem fisiologicamente neutras. Elas não cumprem uma função essencial e não fazem parte da homeostase do organismo.
O problema central é este:
Não existe “quantidade ideal” de algo cujo efeito básico já é lesivo.
Quando se diz “o problema é o excesso”, implicitamente se afirma que:
existe uma dose segura
existe um uso funcional
existe um benefício fisiológico compensatório
Isso não se sustenta cientificamente para várias dessas substâncias.
O erro lógico da analogia alimentar
Comparar drogas a alimentos saudáveis é um erro de categoria.
Abacate → alimento
Álcool → droga psicoativa
Cigarro → produto tóxico inalável
O excesso de abacate causa um desequilíbrio quantitativo.O consumo de álcool ou cigarro causa um dano qualitativo, mesmo em pequenas doses.
Não é a mesma lógica, nem o mesmo tipo de risco.
“Mas pequenas doses não fazem mal”? A falácia do limiar mágico
A ideia de que existe um “limiar seguro” é sedutora porque reduz a dissonância cognitiva. Ela permite continuar consumindo algo prejudicial sem enfrentar o desconforto de admitir isso.
No entanto:
O álcool aumenta o risco de câncer mesmo em baixas doses
O cigarro não tem dose segura para o sistema cardiovascular
Drogas psicoativas alteram circuitos cerebrais mesmo sem dependência instalada
O risco não começa no excesso.Ele começa no primeiro uso — o que muda é a probabilidade, não a natureza do dano.
A moderação como discurso de normalização
Falar em moderação, nesses casos, cumpre uma função social clara: normalizar o consumo.
É um discurso confortável porque:
evita confrontar hábitos culturais
reduz o peso moral e emocional da escolha
desloca a responsabilidade do produto para o indivíduo
Se algo faz mal, mas “só se for em excesso”, então o problema nunca é a substância — é sempre quem “exagerou”.
Isso é extremamente conveniente para:
indústrias
tradições culturais
justificativas pessoais
O ponto não é moral, é biológico
Essa crítica não é moralista nem proibicionista.É biológica e lógica.
Reconhecer que algo é nocivo não obriga ninguém a deixar de usar, mas obriga a chamar as coisas pelo nome.
Comer demais faz mal
Fumar pouco já faz mal
Beber pouco já faz mal
São categorias diferentes de risco.
Conclusão: moderação não transforma veneno em nutriente
A moderação é um conceito válido quando o objeto é compatível com a vida.Ela perde completamente o sentido quando aplicada a substâncias cujo efeito básico é gerar dano.
Usar moderação como argumento universal não é equilíbrio — é retórica de conforto.
E talvez o passo mais honesto não seja perguntar “quanto é demais?”, mas sim: “por que chamamos de saudável algo que só faz sentido se for minimizado?”

