Uma reflexão sobre o Natal contemporâneo
- Rudney Nicacio

- 25 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

A forma como grande parte da sociedade comemora o Natal hoje revela um profundo distanciamento do sentido original dessa data. Aquilo que deveria ser um momento de recolhimento, reflexão e conexão espiritual tornou-se, em muitos casos, um evento marcado pelo excesso, pelo barulho e pela desconexão interior.
O consumo exagerado de bebidas alcoólicas é frequentemente tratado como algo natural, quase obrigatório. A embriaguez, longe de promover alegria genuína, muitas vezes resulta em conflitos, palavras duras, comportamentos agressivos e vazio emocional. Soma-se a isso o som alto, que invade casas e consciências, com letras que reforçam racismo, objetificação e desvalorização da mulher, além de glorificarem a bebedeira e a irresponsabilidade. É um ruído que não apenas ocupa o espaço físico, mas também silencia qualquer possibilidade de escuta interior.
Os comes e bebes sem limite também simbolizam esse desvio de sentido. Mesas fartas que não nascem da gratidão, mas da ostentação; alimentos preparados em excesso que acabam no lixo, enquanto milhões carecem do básico. O desperdício, nesse contexto, não é apenas material — é ético e espiritual. Revela uma relação inconsciente com a abundância, tratada sem respeito e sem presença.
Em contraste, os ensinamentos de Jesus apontam para outro caminho. Ele pregava a simplicidade, a oração silenciosa, a introspecção e a conexão com o divino que habita em cada ser humano. Falava de amor ao próximo, compaixão, humildade e consciência. Nada disso exige excesso, barulho ou fuga de si mesmo. Pelo contrário: exige pausa, silêncio e verdade interior.
Celebrar o Natal à luz desses ensinamentos seria reduzir o volume externo e ampliar a escuta interna. Seria trocar o excesso pela presença, o desperdício pela partilha, a alienação pela consciência. Seria compreender que a verdadeira celebração não está no que se consome, mas no que se transforma dentro de nós.
Talvez o maior desafio do Natal contemporâneo seja justamente esse: lembrar que Jesus não convidava à euforia vazia, mas ao despertar da consciência. E esse convite continua atual — apenas abafado pelo ruído que escolhemos manter.

